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sexta-feira, junho 23, 2006

LIBÉRIA - Monrovia no centro da trama


Centro de Monrovia hoje ao fim da tarde

Andar nas ruas de Monrovia a fotografar é um pouco complicado, para não dizer arriscado. Já estou habituado à banguçada das cidades africanas, desde que conheci Luanda, Bissau e mesmo Maputo; Monrovia consegue bater aos pontos as outras em grau de destruição, porcaria e uma agressividade latente nos passantes.
Os vendedores gritam que não querem fotos e os mais gananciosos pedem logo dinheiro.
Há que fazer pela vida...
Tem de se apontar ao alvo, disparar e bater em retirada, como diria De Gaulle na definição do bom artilheiro e que Henri Cartier-Bresson gostava de citar.

Não deixa de ser divertido para mim andar a espreitar pela Cânon no meio desta babilónia. A minha mulher se me visse por estes sítios mandava queimar tudo o que aqui uso de roupa!...
Ando num jeep das Nações Unidas com uma motorista, a Ammy, que mais parece uma manicure de cabeleira loira, unhas roxas postiças, telemóvel de capa rosa, do que uma motorista de uma organização internacional.Só estilo! Mas é cuidadosa e quando repara pelo retrovisor que eu me afasto ou me vê a ser rodeado por um grupo de suspeitos aí vem ela. A minha colega Manuela Goucha Soares acompanhou-me o que lhe valeu uma verdadeira seca já que eu acabo por demorar um tempo imenso nas minhas investidas nas esquinas.

Para fotografar uso a táctica já habitual. Não começo logo a fotografar o que me chamou a atenção. Cumprimento sempre afável as pessoas e logo sinto se estou a ser ou não aceite. A maioria das vezes acabam por ser as pessoas a pedirem-me para as fotografar.

No final da tarde andei por uma rua com lojas curiosas. Havia um barbeiro inenarrável de vão de escada com posters de futebolistas, uma loja fashion, uma cabeleireira e até uma loja de Internet de onde pude ver a homepage do Expresso. Claro, tudo a 56 mbps, lento como o país.
São fotos para a minha reportagem do Expresso que não vou aqui, obviamente, publicar. Mas acabei por ficar satisfeito com o trabalho.
Aqui o desafio é não cair na tentação de fazer sempre o choradinho das crianças e o folclórico. Mas acaba-se sempre a cair nessa incontornável tentação.

Amanhã vamos falar com pessoas que são, por assim dizer, rostos da nova Libéria. Um país destes não é só lugares comuns sobre guerra e miséria. Hoje encontrámos uma irlandesa que se apaixonou aqui e aqui vive há 17 anos uma paixão intensa.
Um amor e uma catana ? Nada disso. Àfrica é o continente onde o sonho não tem horizonte e quando o tem é já um pesadelo.

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